segunda-feira, 17 de junho de 2013

Objetivos, Avaliação e então Aula

Nesses últimos artigos tenho feito comentários gerais sobre educação e alguns especificamente sobre ensino de engenharia. Acho que está na hora de começar a publicar textos mais voltados para professores de engenharia, ou seja, mais concretos e próximos à prática do dia a dia.

Conversando com alunos, engenheiros formados e professores de engenharia, vi que em geral temos a impressão de que a pedagogia é um monte de blá blá blá. Muita conversa e pouca ação para melhorar o ensino. Acredito que isso deve à dificuldade de comunicação entre as duas áreas. Este artigo tenta reduzir a distância entre o que se faz na pedagogia e o que os engenheiros conseguem aplicar. Basicamente é uma forma de "engenheirização" do processo de planejar e preparar aulas ou disciplinas.

Como aluno de mestrado, participei da conferência chamada Frontiers in Education em 2011. Essa é uma das maiores conferências no mundo sobre ensino de engenharia e informática aplicada à educação. Recomendo bastante a leitura dos artigos e principalmente dos workshops realizados nesses eventos.

Um dos momentos mais marcantes para mim foi a participação em uma oficina com o título: Objetivos, Avaliação e Aula. Para mim, ela resume o básico que todo professor da área de exatas/tecnológicas que não gosta de estudar pedagogia deve saber. A ideia é oferecer um guia, um método, para o professor preparar e planejar suas aulas ou uma disciplina.

Professores devem definir objetivos, depois a como avaliar como os alunos estão com relação aos objetivos, e só então planejar as aulas que devem preparar os alunos para as avaliações 

1. Defina o Objetivo Pedagógico

O "Objetivo Pedagógico" nada mais é do que "aquilo que os alunos devem ter aprendido no final da aula ou disciplina". Essa deve ser a primeira coisa definida ao pensar em uma disciplina ou aula, e muitas vezes nossos professores nem sabem o que é ou qual a importância.

Basicamente, se você não sabe, não tem em mente explícita e detalhadamente, o que os alunos devem aprender, você não vai saber o que e como ensinar. Por exemplo, ao planejar uma disciplina ou um curso de  termodinâmica, o professor pode ter como objetivo ensinar os conceitos fundamentais, ou os procedimentos para solução de problemas, ou procedimentos para projeto de dispositivos, etc.

2. Defina a Avaliação

Definir o objetivo como o primeiro passo é até uma ideia normal. O segundo passo, na minha opinião o mais inovador, é definir o método de avaliação. O método de avaliação diz quais mecanismos e processos serão utilizados pelo professor para avaliar o cumprimento dos objetivos pedagógicos definidos anteriormente.

Existem vários métodos de avaliação possíveis. Um deles é a prova escrita. Outros são trabalhos, seminários, relatórios, projetos também utilizados em cursos de engenharia. Outros não tão comuns são provas orais, avaliação por pares, redações, auto-avaliações, etc.

A avaliação deve corresponder exatamente ao objetivo pedagógico. Por exemplo, se você tem como objetivo que os alunos aprendam os conceitos fundamentais da termodinâmica, será que uma prova escrita com exercícios para o aluno fazer contas realmente avalia isso? Para mim a resposta é: depende. Existem exercícios que podem avaliar conceitos fundamentais, existem perguntas dissertativas que também fazem esse papel. O professor deve definir uma ferramenta adequada de avaliação dos alunos e então prepará-los para reponde-la satisfatoriamente.

3. Defina o Conteúdo, Atividades e as Aulas

Finalmente, o conteúdo, as atividades e as aulas devem ser planejadas e preparadas em função da avaliação. Se o professor deseja que os alunos saibam "de cor" as definições fundamentais da termodinâmica, deve prepará-los para responder a essas perguntas. Se o professor deseja que os alunos saibam resolver exercícios, deve dar aulas e atividades que ajudem os alunos a resolve-los.

As aulas devem ser muito alinhadas com as avaliações planejadas, para não frustrar os alunos e não desperdiçar trabalho do professor com conteúdos que não serão avaliados. Isso torna a etapa de definição da avaliação a mais crítica das três, pois ela tem uma influência muito grande na preparação das aulas cotidianas.

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Os pedagogos com quem conversei acham essa abordagem simplista. Eu acho que para engenheiros é ótima, pois é sistemática e simples o suficiente para entendermos e aplicarmos corretamente. Não precisamos nos preocupar tanto assim com "detalhes" da pedagogia, devemos nos concentrar naquilo que gera mais valor para aumentar a qualidade do ensino.

Um fator delicado nessa abordagem está em como realizar cada uma das etapas. Como definir bons objetivos pedagógicos? Como definir boas avaliações? Como saber que as avaliações que eu preparei realmente avaliam os objetivos que definir para a disciplina? Como analisar se as aulas que dou realmente preparam os alunos para as avaliações?

Vocês conseguem pensar em respostas para essas perguntas? Pretendo mais para frente fazer textos que exploram cada uma das etapas e também dar exemplos mais detalhados de aulas e cursos usando essa abordagem. Têm preferência em algum assunto específico? Alguma dúvida ou sugestão?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sobre Cotas, Vestibular e Mérito

Recentemente saiu uma reportagem sobre uma entrevista do presidente do Instituo Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) no programa Roda Viva da TV Cultura, que pode ser conferida aqui. Um dos assuntos tratados foi a utilização de cotas na seleção de alunos para as faculdades, um assunto polêmico que vou discutir um pouco neste artigo.

Cotas geralmente são uma parcela das vagas (para um curso em universidade, por exemplo) reservadas exclusivamente para um grupo de pessoas que compartilham uma característica. As mais comuns que tenho ouvido falar são cotas para alunos que estudaram apenas em escolas públicas, alunos com baixa renda, e também para pessoas de cor negra. Hoje em dia várias faculdades usam sistemas de cotas ou de facilitação para pessoas com baixa renda (pontos, bolsas, etc), principalmente as universidades federais.

Muita gente tem argumentos contra a utilização de cotas.

E outras pessoas têm argumentos a favor.

Cotas são um assunto polêmico, que gera discussões calorosas, inclusive entre os políticos. Este é um tema ainda em debate, a abrangência e o peso das cotas nas instituições públicas. O mesmo presidente do INEP disse que o rendimento dos cotistas é igual ou maior do que os não-cotistas. Porém, outro dia saiu uma notícia falando que os alunos que entram na faculdade por cotas têm nota, em geral, 10% menor do que dos alunos "normais", veja a reportagem aqui. Quem está certo? E olha que de rendimento nós engenheiros entendemos...

O pesquisador afirmou: "Encontramos diferenças razoáveis. Não são catastróficas como previam alguns críticos das ações afirmativas, mas é importante registrar que existe uma diferença para não tapar o sol com a peneira". 10% de diferença diz que, se a média geral dos alunos foi 7.0, os alunos cotistas tiveram uma média de 6.3. Mas o que isso representa de verdade? Para mim, representa pouca coisa.

Um tipo de comentário comum ao ver essa notícia é: "cotas é uma porcaria, já era esperado que cotistas fossem piores, elas diminuem a qualidade de ensino e impede pessoas que mereçam mais a entrar na faculdade". Vou dividir minha opinião em 4 partes:

Cotas é uma porcaria
Cotas são um jeito de ajudar pessoas desfavorecidas em um processo seletivo, neste caso, o vestibular. Pobres são desfavorecidos por terem menos acesso a educação de qualidade e cursos voltados à preparação para a prova. Por isso, as cotas reservam um mínimo de vagas para certas pessoas, "dando um empurrão" para aqueles que foram quase bem, mas não passariam se não houvesse as cotas.

Para mim essa é uma ação assistencialista e imediatista. Ela ajuda a dar acesso a educação superior de qualidade a pessoas que normalmente não teriam, mas a abrangência ainda é pequena e o efeito disso é muito mais imediato do que permanente. Para resolver o problema de acesso à educação superior de qualidade deve haver (pelo menos simultaneamente às cotas) várias outras ações, sendo uma muito importante o aumento da qualidade do ensino público básico.

Já era esperado que cotistas fossem piores
Assumindo que a nota no vestibular reflete, em média, o "rendimento" dos alunos ao longo da graduação, é possível afirmar isso. Eu não sei se temos dados que afirmam esse raciocínio. Em minha graduação, acredito que há um desvio padrão muito grande na distribuição da posição das pessoas no vestibular e ao concluir o curso.

Além disso, há muitos outros fatores que envolvem a nota de um aluno durante a graduação. Se ele trabalha ou não, se ele se identifica com o curso ou não, se ele se dedica a ele, se ele escolhe as disciplinas mais "fáceis", são apenas alguns exemplos. Será que isso permite que utilizemos a nota do aluno como um indicador único do rendimento de um aluno.

Além disso, 10% de diferença é significativo? Eu não sei. Mesmo que seja significativo, em uma das discussões um amigo meu perguntou brilhantemente: "Não deveríamos comparar os piores com os melhores atuais, mas deveríamos comparar a diferença entre os melhores e piores de antes (sem cotas) com os atuais (com cota)". Não vi ninguém fazer essa comparação, e acredito que ela não vai mostrar números muito grandes.

Cotas diminuem a qualidade de ensino
A ideia que justifica essa afirmação é a seguinte: "Cotas permitem que alunos que tiram nota menor no vestibular entrem na universidade. Esses alunos são piores do que aqueles que entrariam caso não houvessem cotas, pois suas notas no vestibular são maiores. Turmas com alunos que tiraram menor nota no vestibular são piores, logo a qualidade de ensino cai." Isso está muito relacionado à questão logo acima.

As pessoas veem os cursos com baixa procura, mesmo nas "melhores" universidades, e falam que pelo fato do processo seletivo ser "muito fácil", os alunos entram sem base nenhuma. As cotas trariam esse problema para todos os cursos. Acho isso muito difícil, porque geralmente a diferença de resultado no vestibular entre o que entraria sem cota e o que entrou no lugar dele não deve ser muito grande. Alguém conhece algum estudo que fala sobre isso?

De qualquer forma, a qualidade do ensino é afetada por muitos fatores além do resultado do vestibular dos alunos que entram nele. Por exemplo a competência dos professores, a estrutura da faculdade, a vontade dos dirigentes, a relação com outras instituições e empresas, etc. Inclusive, permitir que a qualidade de ensino de uma instituição caia por causa da queda da nota média dos alunos que entram no vestibular é um sinal de fraqueza, de uma sensibilidade que um curso robusto não deveria ter.

Cotas impedem que pessoas com maior mérito passem no vestibular
A ideia que justifica essa afirmação é que a pessoa que tirou melhor resultado no vestibular tem mais mérito do que a pessoa que tirou pior resultado e passou por causa da cota. Por trás disso está a premissa de que o resultado do vestibular, sozinho, verifica precisa e exatamente o mérito de uma pessoa. Isso está longe, mas muito longe de ser verdade.

A comparação mais básica que vem em minha mente é a de um aluno rico e de um pobre. O rico sempre estudou em escola particular boa, o pobre sempre em pública ruim, conseguiu bolsa parcial em algum cursinho que os pais se matam para pagar (ou mesmo que ele paga trabalhando de dia). O rico consegui 70 pontos e o pobre 65. Por causa da cota o pobre passa na frente do rico. Quem será que merece mais? Quem se esforçou mais?

Com essa simples descrição ainda é impossível responder com firmeza a essa pergunta. Mas eu tenho a tendência a dizer que, em geral, o pobre se esforçou e por isso merece mais. Claro que eu estou usando o resultado e o esforço como forma de medir o mérito, se eu usasse apenas o resultado não poderia afirmar a mesma coisa. Eu poderia inclusive considerar vários outros fatores que influenciam o mérito, como contexto social, exemplos de pessoas incentivadoras, etc.

Vestibular não mede mérito, mede (e olhe lá, depois vou escrever um artigo sobre como fazer uma prova que mede superficialmente alguma coisa) o quanto o aluno consegue responder em uma única prova (e outras condições específicas de cada prova) com relação a um conjunto de conteúdos pré-definidos, muitas vezes enfiados goela abaixo dos adolescentes que não têm ideia do que estão estudando.

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Explorei alguns aspectos das cotas que geralmente não são abordados nas discussões. Vocês concordam com o que eu disse? Acha que eu esqueci de citar algo? ou mesmo exagerei em considerar outro fator? Esse é um assunto bem delicado e polêmico, seria muito interessante saber a opinião de vocês.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Mudança nos Currículos dos cursos de engenharia

Recentemente saiu uma matéria muito interessante no jornal Estadão, que você pode conferir aqui. Essa matéria fala bastante das mudanças que a Escola Politécnica da USP está fazendo em seu currículo e o contexto em que essa alteração se insere.

Primeiro eu vou resumir o meu entendimento da reportagem, depois vou comentar. O foco da reportagem é a mudança do currículo da Poli-USP. A ideia é fazer um currículo mais generalista, com cursos menos distantes entre si. Para isso o aluno vai fazer disciplinas de engenharia (não apenas matemática e física) desde o primeiro ano do curso, e no final vai poder cursar conjuntos de disciplinas de outras engenharias e também da pós-graduação. Cada aluno terá um "professor-tutor", para ajudar nas escolhas das disciplinas.

Currículos mais generalistas contra mais especialistas, essa é a resposta?

Além disso, a reportagem cita o ITA, que está reformulando seus cursos também. Essa reformulação se baseia em focar em novos campos, como engenharia física, e em inovação/empreendedorismo. Fala do Insper, escola de administração e economia que vai abrir cursos de engenharia em 2015 com foco também em inovação e empreendedorismo. Em seguida, descreve cursos da UFABC, em que desde 2006 o aluno entra no curso de bacharelado em ciência e tecnologia e depois escolhe qual engenharia seguir.

Na parte final, fala de dois alunos que estudaram engenharia no exterior, na França e no Canadá, procurando melhor formação (já que o Brasil está longe desses países). Um rapaz estudou em Paris e teve aula de finanças, gestão e biotecnologia. O que foi para o Canadá estudou antropologia e sociologia.


Seguem abaixo alguns comentários:

Currículos mais generalistas em vez de mais especialistas
O que faz de um engenheiro um bom engenheiro? Essa é uma pergunta difícil que vou deixar para explorar em uma outra ocasião. De qualquer forma, eu acho ótimo os responsáveis por reformas no currículo terem em mente o perfil de profissional que desejam formar. Espero que eles também tenham em mente bem definidas as competências que definem esse perfil, e as ações cotidianas dos professores e da própria instituição que vão ajudar os alunos a desenvolvê-las.

Acredito que a melhor universidade é aquela que permite ao aluno explorar seu maior potencial. Então caminhar na direção de permitir que o aluno faça uma graduação mais generalista ou mais especialista é muito bom. Aproximar cursos é bom, sempre achei ridículas as disputas entre cursos da engenharia, para ver qual tinha a prova mais difícil... 

Agora, uma reforma que eu acredito ser mais importante do que aproximar os cursos de engenharia é aproximar as disciplinas de engenharia. Minha experiência, e aquela que vejo de todo mundo com quem converso, é de que as disciplinas são distantes umas das outras, mesmo que o assunto seja muito próximo. Facilitar que o aluno enxergue a relação entre as disciplinas, os raciocínios comuns e os diferentes, que aproveite conceitos de uma em outra, é essencial! Isso exige um trabalho de equipe dos professores de um curso. Espero que a reforma do curso da Poli tenha algum esforço também nessa direção.

Fazer disciplinas "de engenharia" desde o primeiro ano
Eu acho muito engraçado dizer isso, separar disciplinas "de engenharia" daquelas de "matemática e física". Todas as disciplinas de um curso de engenharia deveriam ser "de engenharia", sejam elas ensinando cálculo ou processamento de sinais. O que faz a disciplina ser "de engenharia" ou não é o foco, a forma de ensinar a pensar. Eu acho que isso deveria estar em todas as disciplinas dos cursos.

Apesar disso, acredito que trazer assuntos técnicos para o início do curso é interessante, mas não é nada "inovador". Cursos vêm fazendo isso há muito tempo. Espero que seja bem feita essa alteração, pois o início do curso é muito importante para a relação do aluno com a graduação e com sua formação pelo resto da vida.

Empreendedorismo na engenharia
Eu já fiz um tópico sobre esse assunto, você pode conferir aqui. A engenharia e a inovação estão muito próximas conceitualmente, mas em geral muito distantes no dia a dia dos cursos de graduação. Essa reformulação, citando Poli, ITA e futuramente o Insper, é bem vinda na minha opinião. Acredito que isso esteja em pauta por causa da bolha de startups que se formou na última década, e as instituições de ensino devem refletir o mercado.

Tenho um medo com relação a isso. Hoje fazemos cursos de engenharia, e pela sequência absurda de disciplinas de fazer conta aprendemos a ter bom raciocínio lógico e matemático (competência que o mercado de trabalho adora). Esse é um dos métodos mais "força bruta" para se ensinar uma competência, e acredito que exista muitos outros tremendamente mais eficientes. Espero que para ensinar design, inovação e empreendedorismo as instituições de ensino não apliquem também o método "força bruta".

Professor tutor para ajudar os alunos a escolherem disciplinas
Ter um professor tutor para cada aluno é para mim uma ideia fantástica! Pobres alunos que chegam na faculdade de engenharia com 17-18 anos, sem saber nada da vida além de repetir os exercícios do vestibular, devem começar a pensar sozinhos e aguentar a faculdade. Professores tutores podem acompanhar a vida acadêmica dos alunos e aconselhá-los com relação a vários fatores, como estudar melhor, que atividades extra-curriculares fazer, que estágio procurar, etc.

Escolher disciplinas é uma pequena contribuição que professores tutores podem ter a alunos. Espero que não seja a única.

O Brasil está muito longe de outros países
Eu fiz intercâmbio e estudei na 5a melhor escola de engenharia da França. Sim, eles mantêm uma classificação das escolas de engenharia que pontuam cada uma com precisão de 0,5 ponto! O que eu acho um absurdo. Minha experiência com o ensino de lá foi bem marcante, e eu digo, minha faculdade no Brasil no geral é tão boa quanto a que estudei no estrangeiro. Há vantagens e desvantagens em cada uma das abordagens, e por isso não concordo com a visão que a reportagem tem.

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Poxa, já escrevi demais. Vocês gostariam que eu comentasse sobre algum ponto que não abordei? Ou que explicasse mais sobre algum raciocínio mal descrito? Podem comentar que escrevo em seguida de acordo com os pedidos!

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Professor Fácil, Difícil, Legal e Chato - E professor bom?

Quando eu estava na faculdade, tive a brilhante ideia de classificar os professores em duas dimensões, se as disciplinas que ele ministrava eram fáceis ou difíceis, e se ele era legal ou chato.

Esse aqui parece bonzinho...

Professor fácil e chato - aquele que é sério ou reclamão, em cuja aula todos dormem ou ficam conversando, porque ninguém se interessa, mas todos se sentem tranquilos em passar na disciplina...

Professor fácil e legal - esse adora contar histórias, chama o pessoal para tomar cerveja, não cobra presença e deixa todo mundo de boa na aula, com os da frente prestando atenção no que ele fala.

Professor difícil e chato - o pior de todos, o verdadeiro carrasco. Em geral os alunos se matriculavam nas disciplinas com esses professores apenas quando não havia outra possibilidade. Professores desse tipo não permitiam aos alunos viver tranquilamente, e além de tudo eram super rigorosos nas provas, sem deixar nem que o aluno revisasse.

Professor difícil e legal - era o que eu mais gostava. Com professores assim todos eram forçados a estudar para passar nas provas, mas era agradável assistir às aulas e conversar com ele para tirar as dúvidas.

É claro que hoje em dia, depois de estudar um pouco e pensar um pouco mais sobre o tema, acho ridículo classificar professores em apenas duas dimensões. Assim fica parecendo os jornais de televisão que falam superficialmente de um assunto se colocando como dono da verdade.

Ainda na época da faculdade, um grupo de alunos fazia uma avaliação dos professores. Eles pediam aos alunos para darem uma nota ao professor sobre: interesse, planejamento, didática e domínio da matéria. Essa já é uma avaliação mais sofisticada e que começa a dar uma ideia melhor de como é o professor.

Eu estou levantando esse tema, porque li recentemente uma pergunta na rede social Quora que dizia: "Qual é o melhor professor de faculdade que você conhece?", e cujas respostas me deixaram intrigado. Por causa disso comecei a pensar: o que faz um professor bom de verdade?

A maioria das respostas desse artigo do Quora falam sobre professores super famosos que dão aulas-show incríveis e motivantes. Elas são sensacionais mesmo, sugiro a todo mundo assistir aos vídeos dessas aulas. Acredito que se tivéssemos professores motivados e motivadores assim em nossas faculdades, as vidas de todos seriam bem diferentes.

Outro grupo de professores que são bastante citados são aqueles que aparecem em cursos online de grande escala. Esses professores têm uma grande capacidade de transmitir uma mensagem muito claramente pelos meios da Internet. Esses dois tipos de professores são muito bons e são exemplos para os docentes em geral.

Mas ainda, para mim, resta a pergunta: seriam esses professores realmente bons? Será que essas características seriam suficientes para classificar um professor nessa categoria? Eu acho que não. Eu acho que é preciso muito mais para considerar um professor bom. Mesmo durante meus estudos, comentava com os amigos: "tal professor é bom, o outro não", e a justificativa era sempre: a aula dele é boa, ou a aula dele não é boa. Essa é uma visão superficial que os alunos em geral têm ao avaliar os professores: a qualidade da aula é a qualidade do professor.

Um professor bom deve ser muito mais que um bom palestrante.

Isso é bem ruim. O trabalho do professor é muito maior do que apenas dar aula, dar uma palestra. Dar uma boa explicação é necessário para classificar um professor como bom, mas não é suficiente. Devemos avaliá-lo também em outros critérios. A avaliação que os alunos faziam na faculdade que cursei considera, por exemplo, planejamento e interesse.

Para começar, professor deve entender do assunto, deve saber como explicar o assunto, deve conhecer seus alunos, deve conhecer sua faculdade, deve considerar tudo isso em sua aula, deve motivar, provocar, perceber o que falta para um aluno aprender e ajudá-lo a compreender conceitos em geral, elaborar boas provas, bons trabalhos, bons problemas, avaliar bem os alunos, dar um bom retorno a eles, e a lista é longa. O que mais você acha que um professor bom deve ser/fazer?

Mais para frente vou fazer um artigo inteiro sobre as competências esperadas para o professor, como estudei em uma disciplina na faculdade de educação no ano passado. Em que ponto específico vocês gostariam que eu focasse mais?

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Profissionalismo de Profissionais da Educação

No artigo anterior, comentei que fui numa dinâmica sobre empreendedorismo social em educação. Nessa ocasião, exploramos como podemos criar negócios, empresas, com alto impacto social voltados à educação. Isso me lembrou de um assunto problemático: parece que qualquer um pode trabalhar com educação, que não precisa de formação para isso. Não quero criticar o evento, ele só ajudou a levantar o tema. Mas muitas vezes é isso mesmo que acontece, seria isso bom? Considero grave o problema da falta de profissionalismo dos profissionais de educação, apesar de parecer um paradoxo.

Charge no blog "Problogger".

Existem diversas formas de entender a palavra profissional. Pode ser alguém que tem uma profissão, ou mesmo alguém que tem um emprego (o que é bem diferente). Eu gostaria de considerar profissional alguém que estudou e tem uma profissão e aplica o que estudou em sua profissão com profissionalismo. Profissionalismo é outra palavra chata com diversas interpretações. Aqui eu vou apelar para o dicionário mesmo:
  • Cumprimento do trabalho com seriedade, rigor, competência; procedimento do que é bom profissional. Infopédia.
  • Ação, procedimento, qualidade ou característica do bom profissional, daquele que é competente, capaz, proficiente, responsável, sério, pontual, ético etc. em sua profissão. Aulete.

É verdade, eu uso dicionários online gratuitos e não tenho um dicionário em papel.

Como isso se relaciona com o ramo da educação, especificamente com o ensino de engenharia? É aí que o bicho pega. Em muitos casos, pessoas trabalham com educação sem ter formação, e por causa de vários fatores, elas deixam de ser competentes, sérios, éticos e responsáveis em seus trabalhos. Não sou competente o suficiente para justificar bem essa afirmação, então vou me focar no que vejo em cursos de engenharia.


Voltando ao evento que participei, gostaria de fazer uma nota. Não é qualquer um que pode atuar com profissionalmente em educação, mas um empreendedor bom (social ou não)  pode conseguir ótimos resultados em educação. Porém, para que tenha impacto real, deve considerar o seu profissionalismo e o profissionalismo de seus funcionários. Deve cobrar e dar condições para que tenham competência, responsabilidade, e todas as outras características de um verdadeiro profissional.


Em cursos de engenharia temos vários cargos: professor, monitor, diretor, coordenador, etc. Eu consigo afirmar que nesses casos falta muito profissionalismo desses profissionais. Vi diversos casos de falta de ética, por exemplo. Pessoas preferidas conseguindo cargos ou prêmios sem considerar outras pessoas talvez mais merecedoras. "Jeitinhos" de fazer tarefas, seja para avaliar um aluno, para criar uma disciplina, para avaliar um curso. Vocês devem já ter imaginado e lembrado alguns, relate nos comentários casos de falta de profissionalismo de professores que viveu.

Não é só a falta de ética que fere o profissionalismo no ensino de engenharia. Vou falar de competência e responsabilidade de professores. Em minha vida acadêmica, enfrentei (pensem bem, usei o verbo "enfrentar") muitos professores incompetentes e irresponsáveis profissionalmente. Eles podem ser super competentes ou responsáveis como outros cargos e papéis na sociedade. Porém, como professores são uma negação. Isso é falta de profissionalismo.

Li outro dia uma pergunta no Quora, sobre os melhores professores de faculdade que conheceram. Eu ainda vou fazer um artigo específico sobre o que li nesse caso, gostaria só de salientar que chegar em uma sala de aula, cumprir o horário e a ementa de uma disciplina não faz de uma pessoa um professor profissional. Mesmo assim, dar uma boa palestra é necessário mas não é suficiente para ser um professor competente. Estamos cheios de professores amadores, que não são responsáveis em suas atividades.

Aula encantadora de um professor estadunidense. Suficiente para definir sua competência?

Acredito que esse é um dos maiores problemas dos cursos de engenharia, um problema que poucos têm consciência e muito menos atitude para mudar. Eu tenho algumas ideias, mas não sei muito bem ainda como poderemos resolvê-lo. Gostaria da ajuda de todos para atuar nisso. Vocês concordam que precisamos mudar como os cursos funcionam? Que devemos aumentar o profissionalismo de nossos professores e coordenadores?

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Palestra sobre Ensino de Engenharia

Ontem um amigo me avisou que haveria hoje uma palestra sobre ensino de engenharia na Escola Politécnica da USP, dada por uma professora da Universidade de Stanford. Confira a descrição da palestra aqui.


Obs: veja só o nome do laboratório. É tão interessante que eu poderia fazer um artigo inteiro só para explorar esse nome... * ideias *

Infelizmente não consegui ir na palestra, ela me pareceu muito interessante. Por favor, se alguém assistiu ou soube de alguma informação adicional, coloque nos comentários. Vou agradecer bastante.

Quero usar este artigo, na verdade, para falar sobre eventos e formações em ensino de engenharia, e também dos meus planos com relação a esse assunto. Primeiro, eu acho imprescindível a existência de eventos e cursos sobre ensino de engenharia, apenas iniciativas dessa natureza podem começar a mudar a realidade dos cursos de graduação e pós-graduação em engenharia (e outros relacionados). Com o tempo, quero transformar este Blog em um centralizador de informações sobre o assunto. É possível que já exista algo do tipo, procurei apenas superficialmente. Se alguém souber de algo, por favor me avise. Sempre que eu souber, vou atualizar o conteúdo aqui.

Segundo, apesar de serem super interessantes, essas iniciativas são muitas vezes marginalizadas e ignoradas pela grande maioria dos profissionais do ramo. Isso é um indício da importância dada pelos professores a uma formação em ensino de engenharia, é a nossa cultura. Pode ser um indício também da importância dada pelas instituições, sejam faculdades, agências de fomento ou o próprio governo. Veja o currículo da professora que deu a palestra, ele prova que trabalhar bem como professor e inclusive pesquisar sobre o assunto permite ter uma carreira acadêmica notável, o que muitos podem achar que é impossível.

Por fim, quero anunciar que vou preparar um curso à distância e um conjunto de encontros presenciais para discutir o ensino de engenharia. Os artigos que escrevi até agora são mais conceituais e menos práticos. Os próximos terão também informações mais práticas, que servirão para alimentar o conteúdo do curso. Posteriormente, vou publicar aqui as experiências que tivermos nos cursos e encontros. Se alguém quiser contribuir ou estiver interessado em participar, me avise que a gente vai conversando.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Um pouco de Empreendedorismo e Empreendedorismo Social

Esta semana eu fui ao "Choice Day", que é um evento de divulgação do empreendedorismo social, um assunto que me interesso bastante. O Choice é um movimento com o objetivo de divulgar a possibilidade de criar e trabalhar em negócios sociais. Ele funciona como um braço da Artemisia, uma ONG que orienta e acelera negócios sociais.

Choice tem o slogan: mudar o mundo começa com a sua escolha.

O tema do evento era "Negócios Sociais em Educação", é por isso que estou escrevendo sobre ele aqui. O que nós fizemos foi uma dinâmica sobre dados da educação no Brasil, depois elaboramos ideias de empresas sociais no ramo da educação e no final avaliamos essas ideias: os participantes estavam divididos em empreendedor e investidor.

O material usado era muito bom, havia dicas para os empreendedores e investidores pensarem de maneira mais estruturada, modelos para os empreendedores preencherem e reduzir as falhas em seus projetos. Cada equipe recebeu desafios específicos: Educação de Jovens e Adultos (EJA), Formação de Professores e Participação da Comunidade. Temas que quem não é do ramo da educação dificilmente conhece e sabe a importância, posso falar sobre eles depois se vocês quiserem. Eu gostei muito da experiência, da motivação dos monitores e do trabalho da Artemisia. Estão de parabéns. Mais para frente eu vou querer estudar e estar mais em contato com esse ramo.

Apesar de haver poucos engenheiros entre os participantes, o engraçado foi que as ideias de todas as equipes tinham como produto um website. Acho engraçado porque parece que hoje a Internet se mostra como um meio para a solução de tudo. Eu, vindo de um mestrado em "Informática aplicada à Educação", estou em uma fase que a computação/informática só vai ajudar mesmo a educação quando for usada de maneira inovadora, e não para digitalizar os mesmos processos educacionais tradicionais (vejam um vídeo sobre esse assunto).

De qualquer forma, preciso relacionar este artigo com o tema do blog. Vou fazer isso de duas formas: primeiro vou falar de empreendedorismo e empreendedorismo social, e depois vou falar de profissionalismo na educação (que tratarei em outro artigo).

Empreendedorismo nos Cursos de Engenharia

Empreendedorismo está em alta hoje em dia. Esse é um produto de vários fatores, dos quais destaco: perfil da geração Y, crise financeira mundial, crescimento exponencial das oportunidades da Internet. Muitos engenheiros se identificam com a carreira, eu inclusive tenho vários amigos empreendedores. Para citar um caso, vejam o Empreendemia.

Rede social para negócios é produto de trabalho árduo de engenheiros.

Engenheiros, para serem empreendedores geralmente têm que estudar muito, fora da faculdade. Apesar de vários conceitos de engenharia ajudarem empreendedores, o que é ensinado nos cursos de engenharia em geral está muito longe do que os empreendedores precisam. Formas diferentes de pensar, criatividade, comunicação, dinamismo, e várias outras habilidades não-técnicas essenciais para o empreendedor (importantes para o engenheiro), não são consideradas nos cursos.

Por isso eu defendo uma reformulação dos cursos de engenharia (e outros também) de forma a incluírem em seus currículos e em suas avaliações essas habilidades. Precisamos ter mais cursos de criatividade, inovação, perseverança, etc. Não defendo cursos sobre esses assuntos usando os mesmos moldes dos cursos de hoje.  Precisamos de cursos diferentes, que engajam alunos e professores a desenvolverem essas habilidades.

Sobre esse assunto eu gostaria muito de ouvir a opinião de vocês. Principalmente aqueles que enfrentam a carreira de empreendedor. Minha opinião de fora do ramo é muito diferente da de vocês?

Empreendedorismo Social nos Cursos de Engenharia

Um assunto um pouco mais delicado, e que para mim é muito importante hoje, é o empreendedorismo social e como ele poderia ser abordado em cursos de engenharia. Um empreendedor social precisa de todas as habilidades de um empreendedor comum, além de várias outras. A consideração dessas habilidades específicas para o empreendedor social está ainda mais longe da realidade dos cursos de engenharia.

Talvez nem seja uma habilidade, mas eu gostaria de destacar uma característica dos empreendedores sociais que não é tratada na faculdade: a "sensibilidade social". Por sensibilidade social eu quero dizer a consciência de que a vida será melhor para todos se nossas ações (e empreendimentos) trabalharem na direção de uma sociedade mais justa/igualitária. Essa ideia vai contra muita coisa que as pessoas normalmente acreditam, ela envolve valores profundo nas almas das pessoas e precisa de coragem para assumir. Eu defendo que a sensibilidade social seja sim abordada nos cursos de engenharia, possivelmente associada a empreendedorismo. Acredito inclusive que muita gente seja contra isso. Você é contra? Gostaria de saber a sua opinião.

Isso depende muito dos objetivos de uma instituição (seja universidade ou instituto/faculdade) e do curso. No meu caso defendo objetivos que ajudem a formar pessoas integrais, além de engenheiros e empreendedores. E para isso, a sensibilidade social é muito importante. Gostaria de cursos de engenharia ajudando a desenvolver criatividade, empreendedorismo, pensamento crítico e também visão geral do mundo, consciência das ações pessoais e das empresas. E porque não responsabilidade de mudar o mundo para melhor? (e para todos).