segunda-feira, 15 de julho de 2013

POO parte 1 - Começando a Planejar uma Disciplina

Estou planejando uma disciplina de Programação Orientada a Objetos (POO). Quero compartilhar aqui no blog esse processo e fazer algumas discussões.

Para quem não é da área de computação, Orientação a Objetos é um paradigma de programação, uma forma de organizar as ideias e o código de um software. Basicamente ela organiza tudo em objetos para construir programas, como tijolos para construir casas. Existem vários outros paradigmas de programação: estruturada, lógica, funcional, etc.

Objetos simulam bloquinhos de montar programas

Esse é o paradigma das linguagens de programação mais utilizadas, acredito que desde o final da década de 80. A primeira linguagem orientada a objetos é do final da década de 70. Os principais conceitos são objetos, classes, herança, métodos, polimorfismo, associação, etc. Como eu posso então preparar um curso para ensinar meus queridos alunos tudo isso?

Ah, muito simples! O melhor jeito é o mais direto: primeiro eu vou definir o que é orientação a objetos para os alunos, depois, em cada aula, vou apresentando os conceitos mais básicos e depois os mais complexos. Vou começar com classe e objeto. Depois vou falar de atributos e procedimentos, aí os alunos vão entender direito o que é uma classe. Depois de herança, e então de associação, que são as relações entre classes, e para entender isso eles precisam saber o que é uma classe. Por fim vou falar dos diferentes tipos de polimorfismo, pois para compreender isso bem precisam conhecer as relações entre classes. Pronto!

O que eu acabei de fazer? Eu planejei uma disciplina considerando EXCLUSIVAMENTE o conteúdo. Além disso, considerei o conteúdo HIERARQUICAMENTE. Veja por aí cursos e livros de orientação a objetos. Compare a organização e o método de apresentação do conteúdo com o que eu acabei de apresentar. Minha hipótese é que a maioria deles usa exatamente esse método que, em minha concepção, é ruim.

Por que isso é ruim? Eu enfatizei as duas palavras que vão embasar meu argumento. Primeiro, o método não considera os muitos outros fatores que influenciam os processos de ensinar e aprender: o currículo (objetivos para os alunos, para a disciplina, competências e habilidades...), o aluno (idade, formação passada, acesso a recursos, intenções, interesses, tempo disponível, capacidades...), o contexto (instituição, infraestrutura, comunidade...) para listar alguns. Uma analogia simples é projetar um veículo sem considerar alguns fatores como atrito ou desgaste. Essa é uma falha muito grave.

Um pouco menos grave, em segundo lugar, o conteúdo é organizado hierarquicamente. Ou seja, se baseia exclusivamente em pré-requisitos supostos que os alunos precisam "saber" para aprender cada item. Existem várias outras formas de organizar o conteúdo, seja em linha, seja em rede, seja todo de uma vez em uma aula, etc. Para escolher bem a forma de organizar o conteúdo o professor deve ter em mente todos aqueles fatores citados acima. Nada pode ser definido assim sem ter um porquê.

Apesar dessas falhas graves, muita gente continua ensinando e "aprendendo" assim. Isso torna a eficiência dos cursos muito baixa. Você tem ideia de por que tudo continua igual? Por que você acha que as coisas não mudam?

Instituições de ensino, professores e alunos continuam quebrando a cara usando modelos de aula falhos e ultrapassados. (sem perceber?)
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Como eu estou fazendo? O exemplo que quero dar ainda está imcompleto. Estou em uma fase com poucas informações, sei a quantidade de alunos, sei mais ou menos seu tempo livro, seus recursos, mas não muito mais do que isso. Por isso esse planejamento é ainda bem preliminar. Além disso, estou colocando os meus valores nos objetivos pedagógicos acima dos valores da instituição, exatamente por não conhecê-los bem.

De acordo com um artigo anterior daqui do blog, quando vamos planejar uma disciplina ou uma aula, devemos começar pelos objetivos pedagógicos. É sobre isso que vou falar no restante do texto.

Eu enxergo a orientação a objetos como um poderoso mecanismo de organização do pensamento, modelagem e soluções de problemas. Acredito ser por causa disso o sucesso de sua utilização na indústria de software. Além disso, valorizo mais a competência de entender e poder utilizar a orientação a objetos no dia-a-dia do que o conhecimento de tecnologias e linguagens de programação específicas. Outra característica importante para mim é que devemos ser independentes de tecnologias específicas, assim o aluno deveria ser introduzido a várias linguagens disponíveis e atuais.

Essas são considerações que eu faço, meus valores, minhas crenças com relação à disciplina. Esse é um dos fatores importantes na hora de definir os objetivos de um curso. Um outro fator são os valores e crenças com relação ao processo de ensinar.

Por exemplo, eu acredito que é muito mais importante para o aluno praticar com a mão na massa do que receber informações. Acredito que o aluno aprende muito mais se faz atividades relacionadas a assuntos que tem interesse. Por fim, acho que o professor deve ensinar o aluno a se virar sozinho e conseguir resolver problemas, se emancipar.

Dessa forma, eu consigo esboçar um objetivo pedagógico explícito para uma disciplina de POO: os alunos devem saber o que é orientação a objetos (OO), saber modelar situações e problemas usando OO, saber o suficiente das linguagens OO para explorar a Internet em busca de aprofundamento.

Com essa sentença eu não estou considerando muitas coisas, como a posição da disciplina no currículo, o curso de graduação, a situação da instituição, etc. Por isso ainda é um objetivo pedagógico bem genérico. Ao longo dos próximos artigos poderemos refiná-lo.

Você gostaria que eu considerasse algo específico? Alguma situação que enfrenta ou enfrentou? Como você faria o objetivo de uma disciplina de POO?

O próximo passo é a definição das avaliações e então das atividades. Que avaliações você tem em mente quando lê esse objetivo pedagógico? E que atividades, que aulas imagina realizar para alcançar esses objetivos?

Até o próximo artigo!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Liberte seu espírito Hacker!

Você já fez um projeto em que você gostou de trabalhar? Um projeto em que era legal pesquisar soluções para os problemas, e mais legal ainda quando uma das soluções escolhidas dava certo? Pode ter sido em alguma disciplina da faculdade, alguma atividade extracurricular, ou mesmo fora do ensino superior... Acho difícil ter alguém que nunca gostou de nenhum projeto que tenha feito enquanto estudava.

Existe um movimento hoje em dia que descreve essa sensação, de ansiedade positiva para resolver um problema e concluir um projeto, de “espírito hacker”. Assim, são considerados hackers as pessoas que gostam de resolver problemas fuçando possíveis soluções, muitas vezes mirabolantes e extremamente técnicas. Essa conotação vem substituir aquela pejorativa que classificava como hacker o pirata de computador, a pessoa que atrapalhava a vida dos outros por má fé usando a tecnologia. O hacker bonzinho pode ser uma das consequências mais positivas do avanço e da massificação tecnológica.

Um Hacker estereotipado no sentido negativo atuando

Estou muito empolgado com o movimento hacker. Fui ao FISL na semana passada e fiz contato com bastantes pessoas legais. Existem hackers com foco em software, outros em hardware, e outros em máquinas e dispositivos fora da computação. Esses são links para vídeos com palestras muito interessantes, recomendo muito assistir, os projetos apresentados dão exemplos de motivação e trabalho feliz. Mesmo que você não tenha curiosidade pela área, é importante para as pessoas em geral conhecer o estilo de vida dos hackers.

Um resultado de tudo isso são os hackerspaces (ou espaços hacker). Eles são locais físicos em que pessoas/hackers interessadas em um assunto se encontram para fazer seus projetos, aprender, ajudar os amigos ou simplesmente se divertir com o pessoal. Uma outra palestra, dessa vez especificamente sobre os hackerspaces pode ser vista aqui. Eu até fiz uma oficina de montar circuito com esse palestrante. Foi bem divertido. Há vários hackerspaces no Brasil, como o Garoa Hacker Clube em São Paulo, o Laboratório Hacker de Campinas, o Tarrafa em Florianópolis e o Matehackers em Porto Alegre?

Um típico hackerspace

Mas por que estou falando disso no blog sobre ensino de engenharia? Não sei se você percebeu, mas os hackers são pessoas que estão de bem com a vida enquanto estudam e fazem projetos. Há muita gente, educadores, professores, acadêmicos, ativistas em geral, que defende a utilização da filosofia de vida hacker nos cursos e universidades. Liberar o espírito hacker nos alunos para que eles gostem de estudar e aprender. Não seria bom se a faculdade permitisse que você fizesse projetos de seu interesse e realizando esses projetos você aprenderia o conteúdo que eles são obrigados a te passar? Seria outro mundo.

Peça para um amigo que gosta de música em um curso de engenharia elétrica fazer circuitos de processamento de som, amplificadores, pedais de guitarra, baterias elétricas. Ele vai adorar! Será que isso não pode ser usado para aprender os conteúdos das disciplinas clássicas de engenharia? Só esse exemplo que dei abrange todos os cálculos, álgebra linear, física 3, circuitos, eletrônica analógica e digital, sistemas lineares, processamento de sinais, se eu não esqueci algum. Seria um hacker feliz aprendendo engenharia.

E você? Enquanto aluno já usou (ou usa) seu espírito hacker? Acha que seria melhor aprender assim?

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Três Idiotas

Assisti um filme muito interessante sobre ensino de engenharia, chamado Três Idiotas. este artigo vai funcionar meio que como uma resenha do filme e como a visão dele sobre o ensino de engenharia pode nos ajudar.
Três estudantes de engenharia fazendo besteiras.

O filme conta a história de dois amigos que se conheceram na faculdade à procura do terceiro, enquanto lembram de momentos marcantes em suas vidas durante a graduação em engenharia. Ele é indiano, então tem 2 horas e 40 minutos de duração, alterna algumas músicas com cenas de dramaticidade extrema. Eu estou começando a assistir filmes indianos agora, e estou me acostumando ao "gosto" deles de fazer filmes, apesar de preferir o jeito ocidental mesmo.

Eu recomendo o filme por tratar de um tema muito interessante e também por servir de introdução a essa estética indiana de cinema. No final, lembra um pouco o filme Sociedade dos Poetas Mortos.

Dos três personagens principais temos um gênio que vai bem nas provas sem estudar, que ama a engenharia e questiona vários valores do ensino de engenharia naquela faculdade tradicional, um rapaz de classe média que queria ser fotógrafo mas o pai obrigou a fazer engenharia porque "dá mais dinheiro", e um de família mais pobre e encara a engenharia como meio de sair dessa situação.

Outros personagens importantes são o diretor da escola, um professor já idoso que representa todo o tradicionalismo que você pode imaginar, e outro aluno, rival ao grupo protagonista, que vê a engenharia como forma de subir no mundo e fazer parte da elite da sociedade. Todos os personagens são bem lineares e estereotipados, o filme é superficial emocionalmente. Mas é possível fazermos algumas analogias com o que acontece em universidades públicas brasileiras.

Trote ao entrar na universidade...

Apenas os melhores sobrevivem. Essa é a atmosfera da universidade retratada no filme. Nela os alunos devem estudar muito para conseguirem passar nas provas e "merecer" ter o diploma da instituição. Os professores são durões e não dão chances aos alunos de falar ou pensar. Superiores quase no sentido militar, são donos absoluto do conhecimento e fonte de sabedoria para os pobres estudantes.

Esses, por sua vez, devem se virar sozinhos para estudar e decorar todas as informações passadas pelos professores em suas aulas-palestras e reproduzí-las nas provas. Aliás, é isso que se espera de um bom engenheiro. Não necessariamente o que você estuda é o que você deve aprender ou o que você vai usar na vida pós-faculdade. O filme mostra inclusive uma cena de suicídio de aluno que não conseguiu ir bem nas provas. Isso é pouco comum no Brasil, mas em outros países, principalmente na Ásia, chega a ser corriqueiro.

Alguma semelhança com o que você vive ou viveu? Eu me senti no filme,
de tão parecido com o que vivi.

O personagem principal, gênio da tecnologia, desafia o status quo, mostrando novos paradigmas de como encarar o ensino de engenharia. Ele valoriza a paixão por estudar, por explorar e experimentar, que todo aluno e professor deveria ter. Ele serve de exemplo para engajamento em atividades e projetos práticos. Ele questiona a validade das notas, o poder comparativo e preciso das provas (coisas que nossos professores assumem como sagrados).

Em uma situação, ele é colocado forçadamente como professor, substituindo um que palestrava em uma sala calada. Sua aula-exemplo foi colocar duas palavras desconhecidas na lousa e dar 30 segundos para os alunos encontrarem o significado. Essa é uma estratégia de colocar desafios interessantes aos alunos, que acordaram subitamente e caçavam em seus computadores e livros aqueles termos. Interesse que vi em poucas situações em minha vida acadêmica.

Esse filme mostra que a revolução na educação é tão urgente que até comédias pastelão refletem o assunto. Espero que ele inspire muitas pessoas na direção de enfrentar os valores tradicionais do ensino de engenharia e que tenhamos cada vez mais professores felizes por ensinar e alunos felizes por estudar e poder praticar a engenharia que amam para melhorar a vida de todos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Cursos Online Abertos e Massivos - rebatendo uma crítica

Recentemente li um artigo bem interessante criticando duramente a onda de Cursos Online Abertos e Massivos (Massive Open Online Courses - MOOC, sigla em inglês). Está em inglês e você pode acessar aqui.
MOOCs estão em grande alta hoje em dia

Posteriormente vou fazer um artigo mais completo sobre MOOCs. Este artigo se remete mesmo à matéria e tento comentar várias afirmações fortes ou equivocadas. Para entender o contexto, vou fazer uma introdução.

MOOCs são cursos gratuitos que qualquer um pode se inscrever, assistir a palestras e interagir com outros alunos para discutir o conteúdo das palestras e outros recursos, fazer atividades/exercícios e trabalhos/projetos. Existem grandes empresas/plataformas desse tipo de curso: Coursera, Udacity e edX. Entre no site, se cadastre em um curso e experimente, é realmente interessante. Muitos alunos, reportagens em jornais e tudo mais.

Só que o assunto começou a ficar delicado quando uma faculdade começou a aceitar disciplinas de cursos MOOC como créditos para cursos regulares. Isso mexe com o bolso das faculdades dos Estados Unidos e as pessoas começaram a ter medo. O artigo que vou comentar expressa esse medo.

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O artigo pergunta "COULD THE BEST ONLINE COURSES ONE DAY BE AS REWARDING, INFORMATIVE AND USEFUL AS A REAL CLASS?"

O primeiro ponto que vejo nessa pergunta é a distinção entre "cursos online" e "aulas reais", como se cursos online não fossem reais. Isso já mostra a visão do autor que prefere cursos não online aos cursos online. Segundo, ele compara o "melhor curso online" com uma aula "real" normal, sem especificar qual, como se qualquer aula não online fosse benéfica.

Minha resposta para essa pergunta é um grande sim. Tenho essa opinião porque acredito que cada objetivo pedagógico possa ser alcançado de uma maneira bem eficiente usando diversos métodos e abordagens, seja online, presencial, individual, etc. É impossível afirmar que para todos os objetivos pedagógicos o meio online é pior do que o presencial.

Em seguida, o artigo cita uma carta aberta que diz: IN ADDITION TO PROVIDING STUDENTS WITH AN OPPORTUNITY TO ENGAGE WITH ACTIVE SCHOLARS, EXPERTISE IN THE PHYSICAL CLASSROOM, SENSITIVITY TO ITS DIVERSITY, AND FAMILIARITY WITH ONE'S OWN STUDENTS ARE SIMPLY NOT AVAILABLE IN A ONE-SIZE-FITS-ALL BLENDED COURSE PRODUCED BY AN OUTSIDE VENDOR.

Aqui eu vou encanar com o "one-size-fits-all course". Essa afirmação diz que pelo fato do MOOC ser um curso padrão, ele não atenderia à diversidade que os cursos presenciais atendem. Isso é verdade, o MOOC serve para atender a alguns objetivos pedagógicos, e pode haver cursos presenciais que atendam a objetivos diferentes. Então não dá para substituir todos os cursos presenciais/locais com MOOCs. Mas essa não é uma desvantagem particular desses cursos, todos os cursos de todos os professores não atendem a quaisquer objetivos pedagógicos.

Essa seria, sim, uma desvantagem das políticas públicas, ou políticas de uma universidade, de adotar indiscriminadamente MOOCs para substituírem seus cursos específicos. Isso é muito ruim. Provavelmente esse é o medo da pessoa que escreveu o artigo e eu concordo com ela nesse ponto.

Outra coisa ruim, e relacionada a essa, que acontece em todos os lugares do mundo, é o "one-size-fits-all" em cursos presenciais!! Conversei com muitos professores em minha vida, e eles sempre falam: "preparar aula é difícil na primeira vez, depois é só arrumar uns errinhos e atualizar algumas coisas". Isso para mim é a mesma coisa: o professor preparou uma disciplina e dá do mesmo jeito todos os anos, independentemente dos objetivos pedagógicos do curso que se insere. Isso pode ser uma desvantagem atual dos cursos presenciais, já que os online são geralmente cursos originais ou presenciais reformulados.

WE FEAR THAT TWO CLASSES OF UNIVERSITIES WILL BE CREATED: ONE, WELL-FUNDED COLLEGES AND UNIVERSITIES IN WHICH PRIVILEGED STUDENTS GET THEIR OWN REAL PROFESSOR; THE OTHER, FINANCIALLY STRESSED PRIVATE AND PUBLIC UNIVERSITIES IN WHICH STUDENTS WATCH ... VIDEOTAPED LECTURES AND INTERACT ... WITH A PROFESSOR THAT THIS MODEL OF EDUCATION HAS TURNED INTO A GLORIFIED TEACHING ASSISTANT.

Novamente, esse é um problema da forma com que as universidades usam a abordagem MOOC, e não da abordagem em si. Mesmo assim, gostaria de comentar outros pontos levantados por esse trecho. Professores que dão cursos online também são reais. Nem toda universidade com professores reais é boa. Cursos online não são apenas baseados em palestras, e cursos presenciais muitas vezes são mais pesados em palestras do que alguns online. Por fim, "teacher assistant" ou monitor de cursos online é uma profissão muito subestimada hoje em dia. Ela exige muito conhecimento e habilidades que hoje em dia nem temos bem definidas.

Outro trecho segue assim: BUT IF ACADEMICS ARE RESPONDING WITH HOSTILITY TO THE IDEA OF BEING REPLACED BY GLORIFIED YOUTUBE VIDEOS, IT'S ALSO OBVIOUS THAT THERE'S A REAL APPETITE FOR ONLINE LEARNING, AND THAT IT IS COLOSSAL.

Sobre a primeira parte da frase. Se existem professores hostis a vídeos gravados, é porque eles têm medo das pessoas acharem que o vídeo gravado é melhor do que a sua aula. Eu acho que se o vídeo gravado for melhor do que a aula, ele deve substituí-la sim! (parafraseando Sugata Mitra). Os professores hoje devem analisar as possibilidades disponíveis e melhorar a sua forma de trabalhar, e não reclamarem que serão substituídos por serem ruins.

Sobre a segunda parte. É bem possível que haja um grande apetite por conteúdo online porque o conteúdo que é dado presencialmente não seja interessante, e isso contradiz argumentos do artigo. Não se deve separar as abordagens presencial e online, devemos nos apropriar do que é melhor de cada uma e usar para ensinar e aprender. Isso pode, e deve, ser feito em nível governamental, institucional, curricular e disciplinar.

Para fechar, um último trecho: SO IS "THE ANCIENT GREEKS" A SERVICEABLE INTRODUCTION TO THE HISTORY AND LITERATURE OF ANCIENT GREECE? AND HOW! IT'S FANTASTIC: SERIOUS, FUN, BEAUTIFULLY PRESENTED AND ENGAGING AS ANYTHING. WHAT IT IS NOT IS A CLASS. THERE ARE NO PAPERS, NO GRADES, NO FINAL; JUST SEVEN SHORT QUIZZES, ONE ADMINISTERED AT THE END OF EACH WEEK.

"The Anciente Greeks" é um curso online que a autora do artigo fez. Veja só o raciocínio: "O curso é uma ótima introdução ao assunto, mas não é um curso de verdade porque não há trabalho final e notas". Não concordo. Eu tive ótimas experiências de aprendizado em cursos "de verdade" que também não tiveram trabalho final e a nota era simplesmente uma burocracia. Por outro lado, tive péssimas experiências em que havia trabalho final e nota.

De qualquer forma os MOOCs ainda estão nascendo. Eles têm muito o que evoluir, incluindo em avaliação. Por exemplo, eu realmente não acharia razoável aproveitar "The Ancient Greeks" como créditos de um curso de graduação por causa de seu formato, não por ser online. Vou fazer depois um artigo sobre boa avaliação em cursos online.

Uma frase que concordo com o artigo: Estamos aqui para descobrir como usar a tecnologia para melhorar a educação de todos e para proteger o sistema educacional de depredações provocadas por empreendedores/empresas procurando lucro. Devemos ser conscientes, aproveitar o que há de bom e rejeitar o que há de ruim.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Objetivos, Avaliação e então Aula

Nesses últimos artigos tenho feito comentários gerais sobre educação e alguns especificamente sobre ensino de engenharia. Acho que está na hora de começar a publicar textos mais voltados para professores de engenharia, ou seja, mais concretos e próximos à prática do dia a dia.

Conversando com alunos, engenheiros formados e professores de engenharia, vi que em geral temos a impressão de que a pedagogia é um monte de blá blá blá. Muita conversa e pouca ação para melhorar o ensino. Acredito que isso deve à dificuldade de comunicação entre as duas áreas. Este artigo tenta reduzir a distância entre o que se faz na pedagogia e o que os engenheiros conseguem aplicar. Basicamente é uma forma de "engenheirização" do processo de planejar e preparar aulas ou disciplinas.

Como aluno de mestrado, participei da conferência chamada Frontiers in Education em 2011. Essa é uma das maiores conferências no mundo sobre ensino de engenharia e informática aplicada à educação. Recomendo bastante a leitura dos artigos e principalmente dos workshops realizados nesses eventos.

Um dos momentos mais marcantes para mim foi a participação em uma oficina com o título: Objetivos, Avaliação e Aula. Para mim, ela resume o básico que todo professor da área de exatas/tecnológicas que não gosta de estudar pedagogia deve saber. A ideia é oferecer um guia, um método, para o professor preparar e planejar suas aulas ou uma disciplina.

Professores devem definir objetivos, depois a como avaliar como os alunos estão com relação aos objetivos, e só então planejar as aulas que devem preparar os alunos para as avaliações 

1. Defina o Objetivo Pedagógico

O "Objetivo Pedagógico" nada mais é do que "aquilo que os alunos devem ter aprendido no final da aula ou disciplina". Essa deve ser a primeira coisa definida ao pensar em uma disciplina ou aula, e muitas vezes nossos professores nem sabem o que é ou qual a importância.

Basicamente, se você não sabe, não tem em mente explícita e detalhadamente, o que os alunos devem aprender, você não vai saber o que e como ensinar. Por exemplo, ao planejar uma disciplina ou um curso de  termodinâmica, o professor pode ter como objetivo ensinar os conceitos fundamentais, ou os procedimentos para solução de problemas, ou procedimentos para projeto de dispositivos, etc.

2. Defina a Avaliação

Definir o objetivo como o primeiro passo é até uma ideia normal. O segundo passo, na minha opinião o mais inovador, é definir o método de avaliação. O método de avaliação diz quais mecanismos e processos serão utilizados pelo professor para avaliar o cumprimento dos objetivos pedagógicos definidos anteriormente.

Existem vários métodos de avaliação possíveis. Um deles é a prova escrita. Outros são trabalhos, seminários, relatórios, projetos também utilizados em cursos de engenharia. Outros não tão comuns são provas orais, avaliação por pares, redações, auto-avaliações, etc.

A avaliação deve corresponder exatamente ao objetivo pedagógico. Por exemplo, se você tem como objetivo que os alunos aprendam os conceitos fundamentais da termodinâmica, será que uma prova escrita com exercícios para o aluno fazer contas realmente avalia isso? Para mim a resposta é: depende. Existem exercícios que podem avaliar conceitos fundamentais, existem perguntas dissertativas que também fazem esse papel. O professor deve definir uma ferramenta adequada de avaliação dos alunos e então prepará-los para reponde-la satisfatoriamente.

3. Defina o Conteúdo, Atividades e as Aulas

Finalmente, o conteúdo, as atividades e as aulas devem ser planejadas e preparadas em função da avaliação. Se o professor deseja que os alunos saibam "de cor" as definições fundamentais da termodinâmica, deve prepará-los para responder a essas perguntas. Se o professor deseja que os alunos saibam resolver exercícios, deve dar aulas e atividades que ajudem os alunos a resolve-los.

As aulas devem ser muito alinhadas com as avaliações planejadas, para não frustrar os alunos e não desperdiçar trabalho do professor com conteúdos que não serão avaliados. Isso torna a etapa de definição da avaliação a mais crítica das três, pois ela tem uma influência muito grande na preparação das aulas cotidianas.

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Os pedagogos com quem conversei acham essa abordagem simplista. Eu acho que para engenheiros é ótima, pois é sistemática e simples o suficiente para entendermos e aplicarmos corretamente. Não precisamos nos preocupar tanto assim com "detalhes" da pedagogia, devemos nos concentrar naquilo que gera mais valor para aumentar a qualidade do ensino.

Um fator delicado nessa abordagem está em como realizar cada uma das etapas. Como definir bons objetivos pedagógicos? Como definir boas avaliações? Como saber que as avaliações que eu preparei realmente avaliam os objetivos que definir para a disciplina? Como analisar se as aulas que dou realmente preparam os alunos para as avaliações?

Vocês conseguem pensar em respostas para essas perguntas? Pretendo mais para frente fazer textos que exploram cada uma das etapas e também dar exemplos mais detalhados de aulas e cursos usando essa abordagem. Têm preferência em algum assunto específico? Alguma dúvida ou sugestão?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sobre Cotas, Vestibular e Mérito

Recentemente saiu uma reportagem sobre uma entrevista do presidente do Instituo Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) no programa Roda Viva da TV Cultura, que pode ser conferida aqui. Um dos assuntos tratados foi a utilização de cotas na seleção de alunos para as faculdades, um assunto polêmico que vou discutir um pouco neste artigo.

Cotas geralmente são uma parcela das vagas (para um curso em universidade, por exemplo) reservadas exclusivamente para um grupo de pessoas que compartilham uma característica. As mais comuns que tenho ouvido falar são cotas para alunos que estudaram apenas em escolas públicas, alunos com baixa renda, e também para pessoas de cor negra. Hoje em dia várias faculdades usam sistemas de cotas ou de facilitação para pessoas com baixa renda (pontos, bolsas, etc), principalmente as universidades federais.

Muita gente tem argumentos contra a utilização de cotas.

E outras pessoas têm argumentos a favor.

Cotas são um assunto polêmico, que gera discussões calorosas, inclusive entre os políticos. Este é um tema ainda em debate, a abrangência e o peso das cotas nas instituições públicas. O mesmo presidente do INEP disse que o rendimento dos cotistas é igual ou maior do que os não-cotistas. Porém, outro dia saiu uma notícia falando que os alunos que entram na faculdade por cotas têm nota, em geral, 10% menor do que dos alunos "normais", veja a reportagem aqui. Quem está certo? E olha que de rendimento nós engenheiros entendemos...

O pesquisador afirmou: "Encontramos diferenças razoáveis. Não são catastróficas como previam alguns críticos das ações afirmativas, mas é importante registrar que existe uma diferença para não tapar o sol com a peneira". 10% de diferença diz que, se a média geral dos alunos foi 7.0, os alunos cotistas tiveram uma média de 6.3. Mas o que isso representa de verdade? Para mim, representa pouca coisa.

Um tipo de comentário comum ao ver essa notícia é: "cotas é uma porcaria, já era esperado que cotistas fossem piores, elas diminuem a qualidade de ensino e impede pessoas que mereçam mais a entrar na faculdade". Vou dividir minha opinião em 4 partes:

Cotas é uma porcaria
Cotas são um jeito de ajudar pessoas desfavorecidas em um processo seletivo, neste caso, o vestibular. Pobres são desfavorecidos por terem menos acesso a educação de qualidade e cursos voltados à preparação para a prova. Por isso, as cotas reservam um mínimo de vagas para certas pessoas, "dando um empurrão" para aqueles que foram quase bem, mas não passariam se não houvesse as cotas.

Para mim essa é uma ação assistencialista e imediatista. Ela ajuda a dar acesso a educação superior de qualidade a pessoas que normalmente não teriam, mas a abrangência ainda é pequena e o efeito disso é muito mais imediato do que permanente. Para resolver o problema de acesso à educação superior de qualidade deve haver (pelo menos simultaneamente às cotas) várias outras ações, sendo uma muito importante o aumento da qualidade do ensino público básico.

Já era esperado que cotistas fossem piores
Assumindo que a nota no vestibular reflete, em média, o "rendimento" dos alunos ao longo da graduação, é possível afirmar isso. Eu não sei se temos dados que afirmam esse raciocínio. Em minha graduação, acredito que há um desvio padrão muito grande na distribuição da posição das pessoas no vestibular e ao concluir o curso.

Além disso, há muitos outros fatores que envolvem a nota de um aluno durante a graduação. Se ele trabalha ou não, se ele se identifica com o curso ou não, se ele se dedica a ele, se ele escolhe as disciplinas mais "fáceis", são apenas alguns exemplos. Será que isso permite que utilizemos a nota do aluno como um indicador único do rendimento de um aluno.

Além disso, 10% de diferença é significativo? Eu não sei. Mesmo que seja significativo, em uma das discussões um amigo meu perguntou brilhantemente: "Não deveríamos comparar os piores com os melhores atuais, mas deveríamos comparar a diferença entre os melhores e piores de antes (sem cotas) com os atuais (com cota)". Não vi ninguém fazer essa comparação, e acredito que ela não vai mostrar números muito grandes.

Cotas diminuem a qualidade de ensino
A ideia que justifica essa afirmação é a seguinte: "Cotas permitem que alunos que tiram nota menor no vestibular entrem na universidade. Esses alunos são piores do que aqueles que entrariam caso não houvessem cotas, pois suas notas no vestibular são maiores. Turmas com alunos que tiraram menor nota no vestibular são piores, logo a qualidade de ensino cai." Isso está muito relacionado à questão logo acima.

As pessoas veem os cursos com baixa procura, mesmo nas "melhores" universidades, e falam que pelo fato do processo seletivo ser "muito fácil", os alunos entram sem base nenhuma. As cotas trariam esse problema para todos os cursos. Acho isso muito difícil, porque geralmente a diferença de resultado no vestibular entre o que entraria sem cota e o que entrou no lugar dele não deve ser muito grande. Alguém conhece algum estudo que fala sobre isso?

De qualquer forma, a qualidade do ensino é afetada por muitos fatores além do resultado do vestibular dos alunos que entram nele. Por exemplo a competência dos professores, a estrutura da faculdade, a vontade dos dirigentes, a relação com outras instituições e empresas, etc. Inclusive, permitir que a qualidade de ensino de uma instituição caia por causa da queda da nota média dos alunos que entram no vestibular é um sinal de fraqueza, de uma sensibilidade que um curso robusto não deveria ter.

Cotas impedem que pessoas com maior mérito passem no vestibular
A ideia que justifica essa afirmação é que a pessoa que tirou melhor resultado no vestibular tem mais mérito do que a pessoa que tirou pior resultado e passou por causa da cota. Por trás disso está a premissa de que o resultado do vestibular, sozinho, verifica precisa e exatamente o mérito de uma pessoa. Isso está longe, mas muito longe de ser verdade.

A comparação mais básica que vem em minha mente é a de um aluno rico e de um pobre. O rico sempre estudou em escola particular boa, o pobre sempre em pública ruim, conseguiu bolsa parcial em algum cursinho que os pais se matam para pagar (ou mesmo que ele paga trabalhando de dia). O rico consegui 70 pontos e o pobre 65. Por causa da cota o pobre passa na frente do rico. Quem será que merece mais? Quem se esforçou mais?

Com essa simples descrição ainda é impossível responder com firmeza a essa pergunta. Mas eu tenho a tendência a dizer que, em geral, o pobre se esforçou e por isso merece mais. Claro que eu estou usando o resultado e o esforço como forma de medir o mérito, se eu usasse apenas o resultado não poderia afirmar a mesma coisa. Eu poderia inclusive considerar vários outros fatores que influenciam o mérito, como contexto social, exemplos de pessoas incentivadoras, etc.

Vestibular não mede mérito, mede (e olhe lá, depois vou escrever um artigo sobre como fazer uma prova que mede superficialmente alguma coisa) o quanto o aluno consegue responder em uma única prova (e outras condições específicas de cada prova) com relação a um conjunto de conteúdos pré-definidos, muitas vezes enfiados goela abaixo dos adolescentes que não têm ideia do que estão estudando.

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Explorei alguns aspectos das cotas que geralmente não são abordados nas discussões. Vocês concordam com o que eu disse? Acha que eu esqueci de citar algo? ou mesmo exagerei em considerar outro fator? Esse é um assunto bem delicado e polêmico, seria muito interessante saber a opinião de vocês.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Mudança nos Currículos dos cursos de engenharia

Recentemente saiu uma matéria muito interessante no jornal Estadão, que você pode conferir aqui. Essa matéria fala bastante das mudanças que a Escola Politécnica da USP está fazendo em seu currículo e o contexto em que essa alteração se insere.

Primeiro eu vou resumir o meu entendimento da reportagem, depois vou comentar. O foco da reportagem é a mudança do currículo da Poli-USP. A ideia é fazer um currículo mais generalista, com cursos menos distantes entre si. Para isso o aluno vai fazer disciplinas de engenharia (não apenas matemática e física) desde o primeiro ano do curso, e no final vai poder cursar conjuntos de disciplinas de outras engenharias e também da pós-graduação. Cada aluno terá um "professor-tutor", para ajudar nas escolhas das disciplinas.

Currículos mais generalistas contra mais especialistas, essa é a resposta?

Além disso, a reportagem cita o ITA, que está reformulando seus cursos também. Essa reformulação se baseia em focar em novos campos, como engenharia física, e em inovação/empreendedorismo. Fala do Insper, escola de administração e economia que vai abrir cursos de engenharia em 2015 com foco também em inovação e empreendedorismo. Em seguida, descreve cursos da UFABC, em que desde 2006 o aluno entra no curso de bacharelado em ciência e tecnologia e depois escolhe qual engenharia seguir.

Na parte final, fala de dois alunos que estudaram engenharia no exterior, na França e no Canadá, procurando melhor formação (já que o Brasil está longe desses países). Um rapaz estudou em Paris e teve aula de finanças, gestão e biotecnologia. O que foi para o Canadá estudou antropologia e sociologia.


Seguem abaixo alguns comentários:

Currículos mais generalistas em vez de mais especialistas
O que faz de um engenheiro um bom engenheiro? Essa é uma pergunta difícil que vou deixar para explorar em uma outra ocasião. De qualquer forma, eu acho ótimo os responsáveis por reformas no currículo terem em mente o perfil de profissional que desejam formar. Espero que eles também tenham em mente bem definidas as competências que definem esse perfil, e as ações cotidianas dos professores e da própria instituição que vão ajudar os alunos a desenvolvê-las.

Acredito que a melhor universidade é aquela que permite ao aluno explorar seu maior potencial. Então caminhar na direção de permitir que o aluno faça uma graduação mais generalista ou mais especialista é muito bom. Aproximar cursos é bom, sempre achei ridículas as disputas entre cursos da engenharia, para ver qual tinha a prova mais difícil... 

Agora, uma reforma que eu acredito ser mais importante do que aproximar os cursos de engenharia é aproximar as disciplinas de engenharia. Minha experiência, e aquela que vejo de todo mundo com quem converso, é de que as disciplinas são distantes umas das outras, mesmo que o assunto seja muito próximo. Facilitar que o aluno enxergue a relação entre as disciplinas, os raciocínios comuns e os diferentes, que aproveite conceitos de uma em outra, é essencial! Isso exige um trabalho de equipe dos professores de um curso. Espero que a reforma do curso da Poli tenha algum esforço também nessa direção.

Fazer disciplinas "de engenharia" desde o primeiro ano
Eu acho muito engraçado dizer isso, separar disciplinas "de engenharia" daquelas de "matemática e física". Todas as disciplinas de um curso de engenharia deveriam ser "de engenharia", sejam elas ensinando cálculo ou processamento de sinais. O que faz a disciplina ser "de engenharia" ou não é o foco, a forma de ensinar a pensar. Eu acho que isso deveria estar em todas as disciplinas dos cursos.

Apesar disso, acredito que trazer assuntos técnicos para o início do curso é interessante, mas não é nada "inovador". Cursos vêm fazendo isso há muito tempo. Espero que seja bem feita essa alteração, pois o início do curso é muito importante para a relação do aluno com a graduação e com sua formação pelo resto da vida.

Empreendedorismo na engenharia
Eu já fiz um tópico sobre esse assunto, você pode conferir aqui. A engenharia e a inovação estão muito próximas conceitualmente, mas em geral muito distantes no dia a dia dos cursos de graduação. Essa reformulação, citando Poli, ITA e futuramente o Insper, é bem vinda na minha opinião. Acredito que isso esteja em pauta por causa da bolha de startups que se formou na última década, e as instituições de ensino devem refletir o mercado.

Tenho um medo com relação a isso. Hoje fazemos cursos de engenharia, e pela sequência absurda de disciplinas de fazer conta aprendemos a ter bom raciocínio lógico e matemático (competência que o mercado de trabalho adora). Esse é um dos métodos mais "força bruta" para se ensinar uma competência, e acredito que exista muitos outros tremendamente mais eficientes. Espero que para ensinar design, inovação e empreendedorismo as instituições de ensino não apliquem também o método "força bruta".

Professor tutor para ajudar os alunos a escolherem disciplinas
Ter um professor tutor para cada aluno é para mim uma ideia fantástica! Pobres alunos que chegam na faculdade de engenharia com 17-18 anos, sem saber nada da vida além de repetir os exercícios do vestibular, devem começar a pensar sozinhos e aguentar a faculdade. Professores tutores podem acompanhar a vida acadêmica dos alunos e aconselhá-los com relação a vários fatores, como estudar melhor, que atividades extra-curriculares fazer, que estágio procurar, etc.

Escolher disciplinas é uma pequena contribuição que professores tutores podem ter a alunos. Espero que não seja a única.

O Brasil está muito longe de outros países
Eu fiz intercâmbio e estudei na 5a melhor escola de engenharia da França. Sim, eles mantêm uma classificação das escolas de engenharia que pontuam cada uma com precisão de 0,5 ponto! O que eu acho um absurdo. Minha experiência com o ensino de lá foi bem marcante, e eu digo, minha faculdade no Brasil no geral é tão boa quanto a que estudei no estrangeiro. Há vantagens e desvantagens em cada uma das abordagens, e por isso não concordo com a visão que a reportagem tem.

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Poxa, já escrevi demais. Vocês gostariam que eu comentasse sobre algum ponto que não abordei? Ou que explicasse mais sobre algum raciocínio mal descrito? Podem comentar que escrevo em seguida de acordo com os pedidos!